Pra mim a melhor parte de ter criado o canal e o blog é que agora tenho com quem conversar sinceramente sobre tudo que passo por conta da obesidade. Minhas dificuldades e descobertas.

Bárbara Cavalcante

Tenho uns amigos, uns colegas, uma galera aí que falo de vez em quando. Porém não me sinto a vontade pra falar com a maioria dessas pessoas sobre minhas dificuldades, até porque provavelmente elas não entenderiam. Algumas achariam besteira, até porque quem gosta de mim gosta do pacote e tanto faz se estou mais gorda ou mais magra.

Não tenho amigas gordinhas que queiram realmente emagrecer. Na verdade a maioria delas me chama para um rodizio toda vez que nos falamos. A maioria está de boa com seu corpo ou simplesmente tem mais com o que se preocupar.

Eu também tenho muitas coisas a mais pra pensar além das minhas bainhas, mas gosto de falar delas de vez em quando. Nem sempre falo mal, até. De uns tempos pra cá andamos trocando uns carinhos.

É chato isso né? Você conhece mil pessoas, mas só consegue falar dos seus problemas e questões pessoas com duas e olhe lá. Meus amigos mais próximos me apoiam na dieta, mas não falo muito dela. É um assunto chato que ninguém entende como funciona. Na verdade nem eu entendo, uma hora emagreço, logo depois recupero o peso. Aí corta carboidrato e perde peso, toma uma casquinha e ganha 3x o que perdeu. Coisa doida hem?

Não é que os meus ou os seus amigos sejam incompreensivos, mas tem coisas que só quem vive entende. E por aqui – internet – muita gente me entende, passa pelo que eu passo e entende como é tenso ter que se afastar da comida, ter que entender que você não tem que viver pra comer, mas comer pra viver. Pra ser sincera não entendi isso até agora, tô tentando e se rolar aviso a vocês.

Antes eu não gostava que me chamassem de gorda. Não gostava que me olhassem muito também.

Mas aí com o tempo vi que ser gorda não tem nada demais. Quanta gente gorda tem nesse mundo? Mais da metade da população! E continuamos vivendo, indo ao cinema, tomando chá e indo a rodízios. Continuamos tendo filhos, trabalhando com carteira assinada e viajando para a Disney.

Bárbara Cavalcante

Hoje eu sei que ser gorda não é o fim do mundo, mas há pouco tempo eu achava que era. Eu achava que eu era horrível, toda errada e me chamava de coisas no estilo ” porca ” ou ” vaca “. Hoje nem isso dá pra fazer, visto que não me vejo mais assim e hoje sei que porcos são inteligentes e vacas são mansinhas. Porquê devemos nos comparar com esses animais de forma negativa? Não há nada de negativo neles, nós que inventamos isso.

Aliás nós que inventamos isso de não nos gostar. Fulano fala que você é gorda e você chora. Mas você queria que ele falasse o que? Que você é magra? Mas desde quando ser magra é sinônimo de ter saúde ou de ser “bonita“? Você fica triste por ser gorda e tem gente que fica triste por ser muito magra ué.

Ah gente, eu amo tanto vocês. Com os comentários e emails eu descobri que ser “bonita” é algo que depende da nossa visão de mundo. Que todo mundo tem sua beleza. Ela pode ser interior, exterior ou ambas. A prova disso é que o conceito de “belo” é diferente em cada país. Aqui você chama uma pessoa de vaca e é ruim, na Índia é ótimo ser uma vaca, mó de boa, juro!

Tudo bem meus amigos não me entenderem e eu não me sentir a vontade de falar sobre bainhas e como me amo apesar delas, pra qualquer um. Tudo bem eu ter me odiado por tanto tempo, tudo bem eu ter julgado pessoas. Tudo bem eu ter errado, feito dietas malucas e me machucado. Tudo bem eu ter ficado doente e quase ter morrido por conta de tudo isso. Tá tudo bem. Hoje eu me perdoo e digo a mim mesma que tudo isso aconteceu pra que eu aprendesse, amadurecesse e chegasse onde estou hoje: Aqui, juntinho de vocês.

Se perdoe. Você merece uma segunda chance.

E uma terceira, quarta… até milésima segunda. Você só terá fracassado quando desistir de tentar.

A gente se odeia e se machuca tanto, mas se pararmos pra pensar sem nós não teríamos… nós. Nem estaríamos aqui. Somos tudo que temos e esse corpinho que tanto agredimos é o que nos mantem aqui, afinal não rola sermos só alminhas né? Não dá pra tomar chá.

Vivemos em nossos corpinhos. Eles são lindos sim, cada um do seu jeitinho. Eu sei que vemos uma menina magra de cabelo liso na revista e ficamos nos comparando, mas dá pra melhorar isso. Hoje eu vi uma na banca aqui perto de casa. Era alta e ruiva. Pensei assim: Essa menina tem cabelos castanhos como eu, mas os meus são mais escuros. Ela também tem um corpo que a leva pros lugares, como eu. Ela é gente e mulher, como eu. Ela está viva e parece feliz, como eu. Ela é linda, merece respeito, amor e tudo de linda nessa vida, assim como eu.

Assim como nós.

Vamos nos amar mais? Eu começo pra mostrar que dá.