Oi.

Na verdade é só isso que quero te falar. Só vim pra te dizer que eu estou aqui por você. Por mais que, especificamente nesse momento, você não acredite ou finja não saber.

Bárbara Cavalcante

Não sei ao certo, mas é isso que sinto quando você demora mais que o necessário quando vai ao banheiro. Eu ouço seus pensamentos, sinto sua angústia e sofro junto. Por quê você duvida tanto de si? Você afunda o rosto na palma das mãos e implora a Deus por uma resposta. Você sente que nada faz sentido, que a vida não tem propósito e que esse é seu fim, ser nada nem ninguém por ti.

Por quê você faz isso?

Por quê você se agarra a um saco de biscoitos quando se sente só? E por quê continua fazendo isso mesmo sabendo que comer não preenche esse vazio que você sente no peito?

Sinto-me mal quando você aperta as dobras da sua barriga e se chama de nomes esdrúxulos. Sinto nojo quando você diz que não vale nada, nem um esforço sequer. Sinto medo quando você se entrega a qualquer um porque acha que é um privilégio achar alguém que te ature.

Passo mal quando você diz que se odeia, que é melhor continuar sobrevivendo a essa situação absurda até morrer. Morro aos poucos quando você fala que NUNCA conseguirá nada de grandioso, de incrível, de útil até. Perco as forças quando você grita que com você nada de bom acontece nem irá acontecer.

Por quê você faz isso comigo?

Eu sempre estive aqui, só você não via. E eu ainda estou aqui, mas você finge não me ver.

Eu sou a criança que você já foi e que ainda vive em você.

E hoje eu te imploro que você me deixe viver.

Passamos por tanta coisa juntas. Tivemos problemas quando bebê, mas conseguimos chegar aos 7 anos. Aí começaram os problemas em casa, mas aprendemos a ficar quietinhas e chorar escondido. Então na escola descobriram que éramos frágeis, e tivemos que aprender a morrer aos poucos sem que ninguém notasse que poderiam provocar isso em nós.

Na adolescência nos entregamos a alguém que não nos amava de verdade. Achamos que ali sim acharíamos apoio e acabamos criando expectativas demais, por isso doeu tanto quando ele nos deixou pra trás. Choramos muito, você lembra? Sofremos muito mesmo, mas depois passou. E outros vieram, mas o sofrimento foi ficando mais brando a cada vez que o coração parava de bater mais forte por alguém.

Acabou que decidimos ficar sós. Melhor né, mais tranquilo. E assim começamos a procurar mais e mais algo que nos deixasse mais alegres, que completasse o vazio que tínhamos dentro de nós.

Entendo que por toda rejeição e sofrimento que passamos, a comida tenha sido a melhor opção. Ela não falava, não nos criticava ou reprimia. Era algo para nos distrair apenas.

Só não entendo porque ela deixou de ser bobo da corte e se tornou imperatriz.

Bárbara Cavalcante

Era pra ser só um jantar diferente, algo alegre, só pra nós duas. Estava tudo tranquilo até que você abriu outra garrafa de refrigerante e trouxe mais biscoitos. Quando ligou pra pizzaria e pediu mais um combo eu achei que era brincadeira, só acreditei quando a campainha tocou.

Eu tentei te avisar. Eu gritei de dentro da gente que chega, que deu, que estávamos satisfeitas. Mas você queria preencher o vazio, só tínhamos nós duas mesmo, ninguém veria você de roupas rasgadas no sofá comendo sem nenhuma fome, sem nenhum desejo, mas com MUITA esperança.

Esperança de que a dor vai passar. Mas ela começa. Esperança de que as lembranças vão sumir. Mas elas persistem. Esperando de que tudo vai ficar bem. Mas você desmaia.

Já na maca só conseguimos ver as luzes do teto e pessoas falando algo que de nada nos interessava. Você queria saber onde estava papai, mas ele não estava na sala de espera. Você queria saber onde estava mamãe, mas ela não aguentou a notícia e estava internada também. Parabéns, mais uma vez você estragou tudo.

Não, espera. Não foi você… ou foi. Não sei mais. Mas espera, e a gente? Não, você não pode morrer. Precisamos cuidar dos cachorros, pintas as pontas do cabelo de azul e aprender a tocar piano. Precisamos de um amor pra vida toda, de uma viagem ao chile e de pantufas de hipopótamo. Precisamos de uma colcha nova, cantar na chuva e beijar os olhos de um bebê com o nosso sobrenome.

Temos muito a fazer. Você precisa ficar, precisamos. Eu te avise tanto, eu sabia que a comida estava criando mais vazios dentro da gente, mas você me convencia de que precisávamos dela e eu acabei deixando rolar. Mas olha onde você está agora, onde nós estamos.

Rezo e peço por mais uma chance. Imploro, argumento, defendo á nós duas. Precisamos de mais uma chance. Prometo que dessa vez tudo dará certo. Não vamos chorar enquanto comemos uma torta inteira, não vamos babar refrigerante nem tomar laxante depois achando que tudo está resolvido. Não vamos mais ficar horas sem comer achando que adiantá de algo.

Não vamos mais tentar nos matar, nem você a mim nem eu a você.

Deus, eu te peço: Permita. Permita que fiquemos, que tentemos apenas mais uma vez. Prometo que dessa vez vai dar certo, eu sei que vai.

Eu pedi por você, por nós, mas parece que você se esqueceu. No começo você até tentou, disse que ia respeitar as orientações do médico e se cuidar mais. Até compramos roupas em lojas normais, umas com rendinha, lembro bem. Tudo estava indo bem, mas você começou a voltar para os biscoitos, para o banheiro, para as manhãs apertando dobrinhas na barriga e se achando inútil.

Por quê você não quer me deixar viver?

Eu lutei por você. Errei em deixar que caíssemos nessa cilada, errei ao deixar que a comida assumisse o lugar das nossas superações e passasse a compensar nossas dores, mas me redimi. Coloquei força em você pra resistir depois que Deus te tirou da luz do fim e nos deu outra chance. Eu te dei calma e inspiração. Eu sussurrei no seu ouvido que você ia conseguir e no começo você estava conseguindo, mas depois de um tempo você entrou na padaria de novo. E demorou lá dentro.

Dói, cansa, entristece e machuca. Você me destrói, ou tenta.

Mas eu ainda estou aqui.

Sou mais forte que teu instinto, mais forte que teus desejos, mais forte que essa força que te faz nadar contra a maré, que te leva pra longe da costa. Sou mais forte que essa força que quer te afogar.

Eu sou a criança que há em você.

Eu sou seu amor próprio. Sua esperança, sua fé.

Eu SOU os seus sonhos. Eu SOU o seu futuro.

Ainda não conseguimos as pantufas de hipopótamo.

Por favor, PERSISTA, RESISTA, INSISTA.

Não desista, eu imploro. Por você, por nós.

Eu quero viver.

[…]

Eu estou e sempre estarei aqui. Eu acredito em você, eu creio em nós. Você não precisa mais do que isso para continuar.

Apenas continue até chegar lá.

OBS 1: Esse texto é de minha autoria e não reflete necessariamente uma realidade.

OBS 2: É sério.