Eu tenho 22 anos e já estive muito perto de morrer.

Há menos de dois anos fiquei pré diabética, sentia minhas pernas dormentes, a boca doce e muito medo. Não medo de morrer, mas de não poder mais tomar milkshake de ovomaltine no Bob’s.

Nessa época eu não conseguia subir os 4 degraus da portaria sem ficar sem ar e reclamava horrores por ter que andar duas quadras até a faculdade. Fora a campanha que eu fazia contra o degrau alto do ônibus, as escadas do metrô…

Com 20 anos fiquei sem ar apenas por falar alguns minutos. Sentia o coração doer a toa e, diante de tudo isso chorei muito e muitas vezes. Jurei que ia mudar e por muitas semanas a segunda feira seria o dia da transformação.

Seria, pois por anos e anos as segundas se passavam e o desejo de mudar também. Quando o mal estar vinha vinham as promessas, quando ele ia embora a razão ia junto. E mais uma vez eu me entregava a algo que eu achava que era a única coisa que me entendia, que não me cobrava ser algo diferente do que eu era, que não me julgava: A comida.

Por vezes eu desejei que só houvesse eu e a comida no mundo.

Juro.

Agora leia isso, esses dois últimos parágrafos de novo. Isso não é normal. É compensação, é absurdo, é irreal. É doentio.

Confesso que por muitas das vezes que eu quase morri, eu queria morrer. Parecia mais fácil.

Porém por outras muitas vezes eu queria viver, queria mais tempo para tentar mudar as coisas.

Felicidades a quem é, mas eu nunca fui feliz gorda. Ria e fazia piadas para disfarçar, mas depois descobri que rir de mim mesma me fazia parecer mais ridícula do que eu já era, aos meus olhos e aos dos outros.

As pessoas sentiam pena. E eu mais ainda. Sentia ódio de mim mesma, sentia nojo, sentia vontade de sair do meu corpo, jogar aquilo fora, tentar outra coisa.

Até que uma hora eu finalmente acordei decidida a resolver aquele problema de uma vez.

Desde que tomei essa decisão até agora já chorei muito. De raiva, por saber que eu mesma fiz isso comigo. De revolta, pois via pessoas comerem absurdos e continuarem magras e lindas, e eu tinha que comer frango com agrião e fazer alisamento no cabelo. E pra mim eu continuava feia e gorda.

Com o tempo e os quilos indo embora eu comecei a conseguir enxergar algo de bom em mim, pois onde antes só havia derrota e fracasso, agora havia sucesso e esperança. Quando perdi os primeiros 10 kg eu vi que se eu tinha conseguido perder aquilo tudo, poderia perder mais. E quando eliminei 20 kg vi que se eu tinha conseguido chegar ali, poderia emagrecer o quanto quisesse.

E mais uma vez, eu sofri muito. Não mais de nojo de mim ou revolta, mas porque dentro de mim algo gritava “VOCÊ NÃO VAI CONSEGUIR, COME LOGO ESSE DOCE”, e eu respirava fundo e dizia: “JÁ CONSEGUI, NÃO VOU COMER, BÁRBARA.”

E falava o meu nome, sempre. Falava em alto e bom som para que eu sempre tivesse consciência de que eu sou responsável pelas escolhas que eu faço.

Deu certo. Está dando ainda. E vai ter que dar pra sempre.

Eu dei sorte, pois com dieta e exercícios consegui reverter meu quadro e hoje tenho saúde, mas poderia não ter dado tempo. Por isso, segue meu conselho:

Mude.

Agora.

Antes que seja tarde demais.

Porque se você não mudar pelo amor, vai mudar pela dor.