Tive uma infância cheia de conflitos e queria sempre ter a vida de outras pessoas achando que elas não tinham problemas ou dificuldades. Eu tinha problemas em casa, me sentia insegura comigo mesma, não tinha amigos e nem nada do que eu realmente gostasse ou me fizesse feliz.

Bárbara Cavalcante

Sempre tive brinquedos baratos, cadernos da promoção, roupas que eu não escolhia. Nada disso foi por meus pais terem dificuldades financeiras – até tiveram, mas foi por um curto período de tempo – mas sim porque achavam que não tinha necessidade de me dar o que eu queria.

Eu não tinha direito de ter vontade própria e acabava fazendo sempre o que o outros queriam que eu fizesse. Fui ensinada a deixar que os outros decidissem o que era o melhor pra mim. Era como se tudo que eu quisesse fosse ruim, como se tudo que eu dissesse estivesse errado. Por conta disso me oprimi por muito tempo, me escondi, me moldei para ser o que os outros esperavam de mim.

Foi assim com os namorados que tive, onde eu me apagava para atender ao outro. Durante muitos anos eu quis conhecer novas pessoas, novos lugares e ter novas experiências, porém me convencia de que não gostava de sair de casa e de que preferia bicho do que gente para justificar minha inércia perante minhas vontades e assim acreditar que eu estava tomando a melhor decisão pra mim, quando na verdade eu só queria continuar com aquele véu de boa filha, boa aluna, boa tudo.

Acabei descobrindo que na verdade eu não era boa em nada, pra ninguém. Eu era apenas mais uma. Mais uma pessoa que se deixava levar pela opinião dos outros, pela mentalidade alheia. Do que adiantou todo o tempo que me oprimi para atender ao mundo, se ao final o mundo é o que nós fazemos dele? Por me calar e engolir tudo que queria dizer, sucumbir num choro escondido por achar que eu estava sempre errada e sentir que qualquer um era melhor do que eu que engordei tanto, que me travei tanto, que demorei tanto para descobrir tudo isso.

Comer era a minha salvação. A comida não me oprimia, não me subjugava, não me humilhava nem queria que eu fosse alguém diferente do que eu era. Eu amava a comida e sentia que comer era algo que me preenchia. Fazia planos de morar sozinha para me rodear de comida, viver dela dia e noite até morrer feliz. Aprendi a fugir dos problemas e compensar meu estresse comendo. Não enfrentava as dificuldades que apareciam por me achar incapaz, pequena, inútil. Acreditei no que ouvia dentro de casa e passei a me achar uma pessoa feia e gorda que ficava apenas comendo e engordando dentro de casa. E assim fiquei durante anos a fio, comendo e engordando dentro de casa.

Nesse meio tempo descobri o empreendedorismo, o que me mostrou que eu era boa em algo e me ajudou a sair um pouco do fundo do poço onde eu achava que tinha chegado. Conheci muitas pessoas e algumas delas me mostraram o quão incríveis eram as coisas que eu conseguia fazer. Nesse tempo eu não comemorava nada, pois me acostumei a ser cobrada demais e, ao conseguir o que queria, ouvir que eu não fazia mais que a minha obrigação. Se tirasse 8 devia ter tirado 10, se tirasse 10 ok, não fazia mas do que a minha obrigação, afinal pagavam a minha escola para que eu aprendesse tudo, senão seria dinheiro jogado fora.

Depois de muito e muito tempo ouvindo as pessoas apontarem coisas boas que fiz, comecei a aguçar o olhar para os meus talentos. Passei a lembrar de tudo que já tinha feito e observar como eu fazia coisas como se tivesse nascido sabendo, enquanto pessoas com a idade dos meus pais estavam se desgastando para aprendê-las. Passei a observar que eu tenho qualidades e defeitos como qualquer pessoa, e posso escolher por bem desenvolver minhas qualidades e resolver meus problemas.

Assim passei a enxergar minhas vitórias, tudo que eu já tinha passado e lidado de uma forma mais madura do que esperado. Passei a me enxergar. Olhei para dentro e gostei do que vi.

E então olhei para o espelho. A pessoa que eu via por dentro não condizia com a forma que eu observava ali. Aquilo não poderia ser eu. Quem fez isso comigo?

Eu.

Cada um tem seu tempo de acordar. Essa foi a hora que eu acordei.

Todo aquele tempo em que eu engoli choro, palavras e dor. Todos os dias em que eu me obrigava a fazer coisas as quais eu não via sentido, apenas para agradar os outros.  As vezes em que eu comia escondido no banheiro, tudo aquilo que EU fiz comigo mesma tinha me transformado naquela massa que eu via no espelho.

Chorei muito, me senti acabada. Perguntei como e por que umas mil vezes pra mim mesma, mas depois que as lágrimas secaram eu consegui enxergar.

Porque foi necessário.

Bárbara Cavalcante

Eu precisava passar por tudo que passei pra me tornar a pessoas que sou hoje. Tudo. Sério. E essa massa que vejo ficou como um desafio, como uma questão a ser resolvida para que eu definitivamente enxergasse que eu sou capaz de resolver meus próprios problemas e que eu sou sim uma pessoa capaz.

E é isso que estou fazendo hoje, resolvendo meus próprios problemas.

Não foi culpa de ninguém. Todos aprendemos muitas coisas ao longo dos anos e mudamos juntos, eu, minha família e o mundo ao nosso redor. Não adianta se revoltar, questionar tudo como se para tudo tivesse uma justificativa óbvia. Não tem. O tempo nos mostra o porque das coisas. Ao me enxergar passei a me conhecer e a me amar. Hoje me relaciono melhor com as pessoas, tenho amigos e não seria ninguém diferente de mim. Com meu esforço próprio passei a ter tudo que eu queria através do empreendedorismo.

Quando cogitei começar a emagrecer pensei em tudo que passei e passava por conta da obesidade e por isso decidi abrir minha vida e meu coração aqui e no canal, para ajudar pessoas a enxergarem que elas são donas delas mesmas, de seus corpos e de suas vidas e que sim, elas são capazes de resolverem seus próprios problemas.

Por mais que o mundo diga que não.

Eu sofri, sofro e sei que sofrerei ainda. Por conta de mim, dos outros, de tudo. Mas não vou deixar de viver por isso, de me relacionar ou de tentar emagrecer por medo de não conseguir. Enquanto não pararmos de tentar não teremos fracassado. Tudo faz parte, todo sofrimento nos fortalece, apenas temos que racionaliza-lo, lembrar que tudo passa e enfrentar os problemas de frente para que possamos resolve-los e tirar o melhor que eles possam nos ensinar.

Viver é assim. Vencer é assim. Cair e levantar, persistir e insistir até conquistar. Entender que tudo tem seu tempo e que tudo passa, a dor e a alegria, por isso devemos aproveitar cada momento como se fosse o último. Ter paciência e entender que tudo tem seu tempo, o tempo certo das coisas. Cada um ” acorda ” para a vida em um momento.

Esse momento pode ser agora.

Pense nisso.