Nunca pensei que um dia eu teria que regredir para me adequar ao ritmo dos outros.

Eu sempre me dediquei demais, me esforcei muito para alcançar meus objetivos e nunca pensei que eu seria advertida por querer fazer tudo dar certo.

Acho que na verdade eu quis demais, me dediquei demais sendo ” demais ” mais que o necessário.

Estou aprendendo na marra a ser mais equilibrada e disciplinada.

Essa coisa de ter sido sempre chefe de mim mesma e ter trabalhado sozinha por tantos anos me alienou. Sério.

Meu auto padrão sempre foi alto e eu sempre me cobrei demais. Trabalhar mais e mais rápido. Atender mais pessoas da melhor forma. Ganhar sempre mais dinheiro, investir sempre mais dinheiro. Aprender tudo sozinha, resolver tudo sozinha. Chegar mais longe do que qualquer um chegou.

Assim acabei me afastando da realidade do mundo, muito por descordar dela, mas mais por estar muito ocupada fazendo de mim uma máquina de resultados. Nesse tempo estive desatenta e não notei que, quando eu enviava um email a um fornecedor e ele só retornava 3 dias depois, não era porque ele era lento como eu esbravejava. Mas sim porque eu era rápida demais, mais que o necessário.

Eu achava que isso era bom.

Sempre tentei entender porque as pessoas reclamam tanto de seus empregos. Nunca consegui me imaginar trabalhando em horário fixo, enfrentando trânsito, sono e cansaço por algo que eu não acreditasse. Hoje eu vejo que muitas pessoas se sujeitam a isso por um motivo digno, mas cruel: A necessidade.

Necessidade de se alimentar, de pagar as contas e sustentar uma família. Pela pressão das responsabilidades as pessoas vão sucumbindo dia após dia, vão se mesclando a uma rotina que elas discordam, se obrigam a defender ideias as quais divergem, a trabalhar por um salário e não por uma causa a qual acreditem.

A maioria das pessoas acaba gastando a maior parte do seu tempo de vida em um emprego onde ela nem faz o que gosta nem gosta do que faz.

Então decidi que, se um dia eu precisasse ” trabalhar pra fora ” e não pra mim, eu não seria assim. E eu só toparia se a causa fosse boa, se a organização me abraçasse, se eu visse sentido naquilo.

E assim foi.

E tudo mudou.

Descobri que eu era sonhadora demais. Que eu colocava esperança demais nas coisas, expectativa demais.

Que não era assim tão simples. Você não pode trabalhar como quer, mas sim como impõem. Aprendi que entrar às 9h e sair às 17h não é uma opção, mas sim uma imposição.

Eu não sabia. Não imaginava. Juro.

Eu não via isso em casa. Minha mãe sempre trabalhou até concluir o que tinha que fazer e meu pai era sempre uma surpresa: A hora que o telefone tocasse ele teria que ir. Fosse para onde fosse, a hora que fosse.

No começo eu só me senti diferente. Olhava para as pessoas ao redor e não me encaixava em nada. Eu queria sentir meu sangue ferver, fome e sede por querer terminar tudo e suspirar aliviada ao final, como eu via meus pais fazerem e como eu fazia na minha empresa. Porém comecei a olhar em volta e notar que só eu agia assim.

Muita coisa aconteceu, levei vários baques e descobri que virei uma alien, um ser a parte que fazia tudo diferente de todo mundo e sempre achou que seu jeito era o melhor.

Não era. Não é. Nunca foi. Nem melhor nem pior, era o meu jeito. Mas o meu jeito não se adequava a situação, não atendia ao padrão, e eu tive que mudar.

Hoje vejo que na verdade eu não regredi para me adequar a nada, apenas fui obrigada a respirar um pouco e cobrar menos de mim. Tive que aprender a deixar trabalho pros outros também. Tive que aprender a pedir orientação, opinião, aval de outras pessoas quando antes era eu e eu. Eu decidia, eu fazia e eu cobrava. E aí de mim se não fizesse. Eu resolvia tudo e adorava sentir o alívio em saber que estava indo dormir sem nada pendente.

Mas agora chega de eu.

Sejamos nós.

Mar calmo nunca fez bom marinheiro

Sofri no começo, doeu, ardeu, eu quis me debater. Me senti presa, retida, advertida sem razão.

Remoí-me um pouco, mas depois passou e consegui ver claramente que as pessoas só estavam me pedindo pra respirar um pouco e ter calma, pois no ritmo do mundo no final tudo daria certo.

Tive que me acostumar a ter hora certa de entrar e sair, ter rotina, dar explicações e principalmente, pensar mil vezes antes de falar.

Hoje vejo que essa fase servirá para que eu aprenda a me organizar, gerenciar meu tempo e a dar importância ao que outras pessoas pensam. A delegar competências ao invés de chamar toda a responsabilidade pra mim.

É um respiro que, sinceramente eu estava precisando.

Hoje eu tenho tempo para me dedicar a escrita, a fotografia, aos meus cães. Tempo que antes, quando eu estava só em casa, não tinha, pois ficava 24h trabalhando.

Eu vou aprender, vou crescer, vou absorver tudo que puder e vou buscar melhorar a cada dia.

Eu quero sentir que não só agarrei essa oportunidade com unhas e dentes, mas que suguei até a última gota de tudo que ela me ofereceu.

Isso pode ser bom. Eu farei disso algo bom. Eu sairei disso melhor do que quando entrei.

Torçam por mim.


Obrigado pelos emails, por confiarem a mim suas histórias, fracassos e vitórias.

Somos todos um.