Esses dias tive uma oportunidade incrível. Morei sozinha por praticamente uma semana. Meu pai estava no hospital e minha mãe ficou praticamente todo o tempo lá cuidando dele, só vindo em casa 1x por dia para almoçar e toma um banho (agora ele já voltou e tudo está bem).

Cuidei da casa como já faço, mas mais. Lavei a temida louça, passeei com os cães, dei comida aos periquitos e água às plantas. Seria simples se com a liberdade viesse apenas a responsabilidade. Mas vem também o autoconhecimento.

Nesse período muita coisa aconteceu. Tomei um baque da vida e senti que envelheci uns 5 anos. Sinto isso toda vez que levo um susto, algo que tira o controle da minha vida das minhas mãos e envia uma voz que susurra “se liga” no meu ouvido. Não teve a ver com o que aconteceu com papai.

Tive que mudar de planos. Fiquei meio assim uns 2 dias, mas nada de deprê, só curti a tristeza mesmo. Logo depois me restabeleci, eu sempre tenho um plano A, B e C. O A não deu, parti pro B. O B tá capenga, tá me desgastando, sei lá se é ele mesmo. Na dúvida começo a dar mais atenção pro C e ele começa a me seduzir. Chama-me com uma voz suave dizendo ” imagine viver do que gosta de fazer Bárbara… “. Eu respondo tímida “preciso do meu INSS ” e ele responde “você precisa viver“. Sim, o plano C sempre me chama pelo nome.

Nesses dias que fiquei aqui sozinha com os peludos e meu irmão (que estava sempre na faculdade, na minha avó ou dormindo) me senti dona de mim mais do que já sou. Nesse apartamento de 120 m² às 17:45h só tinham a varanda da frente, o sol se pondo e eu. E logo mais diversas estrelas, uma lua incrivelmente brilhante e eu. E quando eu estava triste aqui só estávamos eu e a tristeza. E eu pude chorar, me sentir mal, cobrir os olhos e tremer sem interrupções, sem preocupações, sem me esconder ou fingir. Tristeza é pra se curtir, pois tanto ela quanto a felicidade passam. São momentos. Tudo passa nessa vida mas enquanto o momento durava eu queria sentir a pele arder, queria sentir meu coração bater, queria entender.

Eu melhorei sem ninguém precisar me dizer para melhorar. Aprendi sem ninguém me ensinar. Me restabeleci sem ninguém pedir.

Caí, sofri e entendi. E cá estou de volta, de novo e novamente. E vai ser assim sempre. Eu precisava desse tempo aqui, só. Eu precisava pois estava perdida querendo fazer tanta coisa, e ao mesmo tempo sentindo que nada daquilo era o que eu realmente queria mas sim o que achava que devia fazer. Quando as vozes se dissiparam e a casa se silenciou eu só tinha eu e a mim mesma, e o espelho a minha frente.

E toda esse peso perdido. Perdi mais de 22 kg desde janeiro, mas não havia um sorriso no meu rosto. Mas eu queria tanto isso. Não queria?

Quero, mas não é só. O corpo é só a casca, a casca de uma alma que espelha uma menina chorando num canto, pois a poesia ganhou o concurso da escola mas os pais não foram à apresentação.

Senhor Deus, o que eu quero da minha vida? Eu sei o certo a fazer, que é ter estabilidade, emprego fixo, salário certo, aposentadoria. Mas eu NUNCA me imaginei saindo ás 8h e voltando ás 19h pra casa. Nunca me imaginei saindo de casa com vontade de ficar. Nunca me imaginei me desgastando tanto lendo páginas aqui quando na verdade quero estar sobre outro livro, o meu. De olhos, corpo, alma.

E quantas vezes eu parei no meio da sala porque o pôr do sol laranja no horizonte me chamava. Eu em pé na varanda, buscando o começo e o fim daquela luz enquanto ele me dizia “a vida não é só isso Bárbara”, “a vida não é só o que você está fazendo agora”, “a vida é muito mais”. E antes de sumir sussurrava “busque a verdade dentro de si”.

Nesse tempo aqui sozinha produzi pensamentos que eu mesma nunca achei que conseguiria entender, mas agora era tudo tão claro. Criei obras inteiras na minha cabeça. Bach ficaria orgulhoso. Escrevi loucuras e mais loucuras que gritam para serem lançadas ao mundo. Cozinhei meus melhores pratos, afaguei da melhor forma meu gato, penteei de lado meu cabelo, tomei banho quente. O rádio ás 19h dizia que o mundo estava desabando, que havia violência, havia caos, tudo estava perdido. E dentro de mim só havia luz, só havia paz, eu estava salva.

Eu achava que jamais conseguiria viver só, ficar só. Mas vejo que estar só não é solidão mas plenitude em si, plenitude de mim mesma. É quando eu faço tudo melhor, quando penso melhor, quando consigo colocar o melhor de mim no papel, no ar, na vida. Quero mais.

Me desenvolvi. Cresci. Envelheci uns 10 anos na minha cabeça, mas rejuvenesci uns 20 no meu coração. Sozinha pude observar os  fios brancos que circundam os olhos do gato e os pelos penteados em seu nariz. Sozinha pude escutar o tique do relógio, observar a distribuição dos livros na estande. A correria do dia a dia me deixou, a rotina foi para Londres e eu fiquei aqui.

E gostei.