Estou organizando arquivos no computador e achei esse texto, que foi o que desenvolvi para tentar uma vaga como redatora no Obvious. Ele foi aprovado e eu fiquei felicíssima! Hoje tenho 4 textos na plataforma, sendo que 3 receberam destaque na época da publicação. Vocês podem conferi-los aqui.

Segue o texto aprovado abaixo, reli e gostei bastante hoje, bem mais que na época em que o escrevi:

A arquitetura dos novos condomínios

condominio

Nos tempos “de vovó” os projetos residenciais eram voltados para a vida em família. Prédios baixos abrigavam grandes e espaçosas suítes que coexistiam com pés direitos altos, onde lindos lustres reinavam soberanos.

Belíssimos estofados na sala, a delicada penteadeira no quarto e a clássica banheira no toilete ficaram no passado. Hoje os itens citados são opções de luxo, os quais apenas criaturas dispostas a desembolsar vultosas quantias podem acrescentá-los nas construções e residir em pomposos apartamentos.

Em um cenário de insegurança e escassos estacionamentos, aproveitar os momentos de lazer o mais perto possível de casa parece ser a melhor opção, mesmo que isso condene nosso espaço privado. Não é difícil achar complexos de dois ou mais blocos com pequenos apartamentos onde encontra-se desde padaria à academia, desde sala de jogos à piscina nas áreas comuns. Alguns condomínios também usufruem de cinema, lavanderia e centrais onde pode-se contratar diversos serviços como home clean e personal organizer.

O lado positivo, dizem os moradores, é a segurança de ter tudo dentro do condomínio, ir à academia ou mini mercado sem precisar usar o carro e deixar as crianças brincarem mais ” soltas ” sem preocupação. O lado negativo porém,inclui uma taxa de condomínio massacrante. Os problemas com vizinhos também demandam paciência, visto que agora são milhares e qualquer palavra dita mais alto entende-se como danos morais.

A arquitetura da convivência veio com a ideia de proporcionar mais segurança e conforto aos moradores, porém ela também cria bolhas urbanas e gangues de condomínio. Muitas pessoas não veem que se houvesse segurança e boa gestão urbana as crianças poderiam viver ” mais soltas ” nas ruas, brincar de pega e de queimado, como nos tempos dos nossos avós.

Muitas coisas boas do passado foram substituídas por genéricos, onde crianças jogam futebol com consoles nos games e não na rua. Por conta da insegurança fomos nos adaptando e assim também foram os engenheiros e arquitetos, criando projetos para abrigar nossos medos e nos acalentar nessa falsa solução travestida de paredes e portões.

O mundo é vasto e a vida profunda demais para vivermos em bolhas revestidas de cimento. A arquitetura voltada ao social é bela, mas quando fora dos portões não há caos.